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IMPACTO

O que dois anos de treinamento em Medicina de Família fazem na prática médica na Atenção Primária à Saúde.

Evidências de 600 mil pacientes acompanhados por 6 anos na Atenção Primária do Rio de Janeiro por médicos de família e por médicos generalistas (médicos sem treinamento em medicina de família) no Rio de Janeiro.

Os dados aqui apresentados vêm de uma coorte de 600.000 pacientes acompanhados na atenção primária do Rio de Janeiro entre 2013 e 2018. Pacientes foram atendidos por dois grupos de médicos distintos: médicos de família com 2 anos de formação em residência médica nesta especialidade (200.000 pacientes) versus médicos sem esta formação (400.000 pacientes). Condições de trabalho e perfil demográfico das populações atendidas eram os mesmos, sendo a única diferença a formação dos médicos.

Os números abaixo refletem o que aconteceu nessa coorte. Use a barra abaixo para projetar o que aconteceria com a detecção de doenças, com o pedido de exames, com os encaminhamentos para a atenção secundária e com as internações hospitalares se a proporção de médicos de família fosse maior — ou menor.

66.4% 33.6% 33.6%
Mova para simular cenários
DETECÇÃO DE CONDIÇÕES CRÔNICAS

Médicos de família detectam mais

28 condições · BMC Family Practice (2021)

Médicos de família foram mais capazes de detectar a maior parte das 28 condições crônicas analisadas. O efeito é particularmente forte para condições que exigem suspeita ativa: drogadição, abuso de álcool, doença arterial periférica, insuficiência renal.

Evento RR (IC 95%) Observado Δ Novo
Hipertensão 1.15 (1.13 - 1.17) 11.681 0 11.681
Diabetes Mellitus 1.07 (1.04 - 1.11) 4.089 0 4.089
Hipotireoidismo 1.51 (1.25 - 1.82) 79 0 79
HIV - AIDS 1.19 (1.09 - 1.29) 415 0 415
Drogadição 1.98 (1.76 - 2.22) 197 0 197
Abuso de álcool 1.72 (1.54 - 1.91) 237 0 237
Depressão 1.19 (1.14 - 1.26) 1.119 0 1.119

Detectar doenças no momento oportuno significa poder iniciar o manejo em fases mais iniciais da doença, possibilitando modificar a história da doença, prevenir desfechos indesejáveis e evitar que complicações e sequelas sejam estabelecidas.

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EXAMES LABORATORIAIS

… e solicitam menos exames

30 exames · BMC Family Practice (2021)

Médicos de família solicitam menos exames laboratoriais e de imagem, fazendo uso mais racional destes recursos. Estas reduções são particularmente significativas em exames solicitados rotineiramente como hemograma, ureia, ácido úrico, LDL colesterol, urinálise.

Evento RR (IC 95%) Observado Δ Novo
Hemograma 0.53 (0.53 - 0.54) 51.757 0 51.757
Creatinina 0.85 (0.84 - 0.86) 43.746 0 43.746
Ureia 0.29 (0.28 - 0.29) 22.577 0 22.577
EAS (urinálise) 0.67 (0.67 - 0.68) 41.333 0 41.333
Sódio 0.42 (0.41 - 0.43) 10.517 0 10.517

Solicitar menos exames não significa ofertar menos cuidado, mas sim fazer uso mais judicioso destes recursos. Com melhor julgamento clínico, médicos de família detectam mais doenças ao mesmo tempo que solicitam menos exames.

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ENCAMINHAMENTOS AO NÍVEL SECUNDÁRIO

Encaminham com critério

31 especialidades · BMJ Open (2022)

O cenário aqui é mais matizado que nas seções anteriores: médicos de família não simplesmente encaminham menos.

Médicos de família não simplesmente encaminham menos, mas o fazem mais criteriosamente. Para condições que demandam recursos especializados — reabilitação, fisioterapia, cirurgia oftalmológica — encaminham os pacientes mais prontamente, ampliando o acesso para quem realmente precisa. Para condições clínicas que podem ser manejadas na APS — dermatologia, ortopedia ambulatorial, cardiologia, pneumologia, endocrinologia — encaminham muito menos, retendo o cuidado no primeiro nível. O efeito final é o aumento da capacidade de resposta do sistema de saúde.

Evento RR (IC 95%) Observado Δ Novo
Cardiologia 0.40 (0.38 - 0.43) 2.008 0 2.008
Neurologia 0.50 (0.47 - 0.53) 1.835 0 1.835
Psiquiatria 0.45 (0.40 - 0.50) 897 0 897
Dermatologia 0.49 (0.47 - 0.51) 4.144 0 4.144
Pneumologia 0.54 (0.48 - 0.60) 903 0 903
Infectologia 0.74 (0.63 - 0.87) 290 0 290

A redução de encaminhamentos não congestiona a atenção primária, mas desafoga a atenção secundária, fazendo com que o cuidado do paciente aconteça onde realmente deve estar.

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INTERNAÇÕES HOSPITALARES

Reduzem internações

14 condições sensíveis à APS · PLOS Glob Public Health (2023)

Pacientes acompanhados por médicos de família tiveram menor risco de hospitalização para condições sensíveis à atenção primária analisadas (lista brasileira ICSAP). O efeito foi observado tanto para condições agudas (pneumonias, infecções de pele, condições relacionadas à gravidez, parto e puerpério) quanto para condições crônicas que, caso sejam bem manejadas, podem reduzir o risco de agudização e de necessidade de internação hospitalar — asma, insuficiência cardíaca e angina pectoris são alguns exemplos.

Evento RR (IC 95%) Observado Δ Novo
Hipertensão 0.83 (0.61; 1.15) 128 0 128
Diabetes Mellitus 0.76 (0.56; 1.04) 160 0 160
Acidente vascular cerebral (AVC) 0.74 (0.58; 0.95) 244 0 244
Angina pectoris 0.62 (0.51; 0.75) 271 0 271

Cada internação evitada representa não apenas economia para o sistema, mas redução de sofrimento e melhor qualidade de vida. Um paciente com asma que está bem controlado será um paciente a menos no pronto-socorro.

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CONTINUIDADE DO CUIDADO

Diagnosticar é só uma etapa

3 análises distintas

Diagnosticar, pedir exames ou fazer um encaminhamento são apenas uma etapa do cuidado. Continuá-lo ao longo do tempo com o mesmo profissional é um desafio e uma atribuição da Atenção Primária à Saúde. Ao realizar um novo diagnóstico, encaminhar um paciente ao nível secundário e ao internar um paciente, médicos de família realizam mais consultas de seguimento em cada uma destas três situações. Isso mostra como o treinamento nesta especialidade prepara médicos para realizar a continuidade do cuidado de seus pacientes.

Continuidade do cuidado após diagnóstico

Diagnosticar uma condição de saúde em um paciente é apenas uma etapa do que fazemos na Atenção Primária à Saúde. Continuar o cuidado deste paciente ao longo do tempo — manejando o problema conjuntamente com o paciente, lançando mão de medidas farmacológicas e não-farmacológicas para mudar o rumo da doença, proporcionando alívio de sintomas ou tomando medidas para mitigar potenciais consequências desta doença — representa grande parte da rotina do trabalho de médicos de família.

Além de diagnosticar mais problemas crônicos de saúde, médicos de família realizam mais consultas de seguimento após o diagnóstico. A tabela abaixo mostra o "risco" de um paciente ter uma consulta de seguimento nos 30 dias após ser diagnosticado, quando comparado com um médico generalista sem formação em medicina de família.

Em outras palavras, médicos de família não só diagnosticam mais seus pacientes, mas também oferecem mais consultas de seguimento.

Condição Follow-up (RR, IC 95%)
Hipertensão 1.54 (1.41–1.68)
Diabetes Mellitus 1.43 (1.32–1.55)
Hipotireoidismo 2.25 (1.86–2.72)
HIV-SIDA 1.72 (1.55–1.91)
Drogadição 2.64 (2.22–3.14)
Abuso de álcool 2.53 (2.13–2.99)
Depressão 1.89 (1.70–2.11)
Psicoses e esquizofrenia 1.77 (1.58–1.98)
Arritmias cardíacas 1.93 (1.70–2.19)
Doença arterial periférica 2.80 (2.26–3.47)
Doença isquêmica cardíaca 2.01 (1.77–2.27)
Insuficiência cardíaca 2.66 (2.34–3.01)
Insuficiência renal 2.44 (2.08–2.87)
Osteoartrite 1.77 (1.57–1.98)
Doença reumatológica 1.74 (1.56–1.93)
Doença neurológica 1.94 (1.75–2.15)
Epilepsia 1.37 (1.24–1.51)
Acidente vascular cerebral 1.73 (1.55–1.94)
Demências 1.78 (1.56–2.05)
DPOC 1.56 (1.41–1.72)
Asma 1.71 (1.51–1.93)
Hepatite crônica 1.85 (1.59–2.15)
Cirrose hepática 1.99 (1.77–2.24)
Neoplasias 1.78 (1.43–2.20)
Neoplasias (genital masculino) 2.14 (1.75–2.62)
Neoplasia (genital feminino) 2.08 (1.77–2.46)
Câncer de mama 1.69 (1.06–2.70)
Câncer metastático 1.18 (1.10–1.27)

Continuidade do cuidado após encaminhamento

Encaminhar pacientes ao nível secundário é importante na jornada terapêutica de muitos pacientes. Mas médicos de família devem ser capazes de responder à maioria das necessidades de cuidado no primeiro nível, onde atuam. Encaminhar deve ser feito com critério e objetivos específicos — nunca para transferir o cuidado.

A tabela abaixo mostra que pacientes encaminhados ao nível secundário por médicos de família têm chance maior de serem vistos novamente na atenção primária pelo mesmo médico nos 3 meses e 6 meses seguintes — quando comparados a pacientes encaminhados por generalistas.

Especialidade / procedimento 3 meses (ratio, IC 95%) 6 meses (ratio, IC 95%)
Consulta ambulatorial
Cardiologia 1.86 (1.62 – 2.14) 1.74 (1.48 – 2.04)
Neurologia 1.78 (1.56 – 2.03) 1.74 (1.49 – 2.02)
Psiquiatria 2.15 (1.75 – 2.64) 2.05 (1.62 – 2.61)
Dermatologia 1.42 (1.30 – 1.55) 1.45 (1.32 – 1.60)
Pulmonologia 1.73 (1.41 – 2.11) 1.76 (1.39 – 2.23)
Infectologia 2.02 (1.47 – 2.77) 1.55 (1.11 – 2.17)
Urologia 1.74 (1.54 – 1.98) 1.79 (1.55 – 2.06)
Alergologia 1.89 (1.47 – 2.41) 1.97 (1.50 – 2.58)
Nefrologia 2.17 (1.74 – 2.71) 1.89 (1.45 – 2.46)
Endocrinologia 1.74 (1.44 – 2.11) 1.47 (1.19 – 1.82)
Gastroenterologia 1.77 (1.42 – 2.20) 1.92 (1.48 – 2.50)
Angiologia 1.40 (1.15 – 1.70) 1.40 (1.12 – 1.75)
Reumatologia 1.86 (1.52 – 2.28) 1.58 (1.25 – 1.98)
Fisioterapia 1.73 (1.58 – 1.90) 1.72 (1.54 – 1.92)
Reabilitação 1.73 (1.52 – 1.97) 1.55 (1.34 – 1.80)
Oftalmologia 1.62 (1.54 – 1.70) 1.57 (1.49 – 1.66)
Otorrinolaringologia 1.70 (1.53 – 1.89) 1.52 (1.36 – 1.71)
Ortopedia 1.83 (1.69 – 1.97) 1.63 (1.50 – 1.78)
Ginecologia 1.88 (1.57 – 2.25) 1.78 (1.45 – 2.18)
Pré-natal – alto risco 1.16 (0.93 – 1.44) 0.92 (0.71 – 1.19)
Avaliação cirúrgica
Cirurgia ocular 1.62 (1.51 – 1.74) 1.45 (1.34 – 1.58)
Cirurgia ginecológica 1.65 (1.42 – 1.93) 1.55 (1.30 – 1.84)
Cirurgia ortopédica 1.48 (1.01 – 2.16) 1.22 (0.81 – 1.82)
Cirurgia geral 1.74 (1.56 – 1.93) 1.64 (1.45 – 1.84)
Cirurgia plástica 1.51 (1.30 – 1.77) 1.43 (1.21 – 1.68)
Cirurgia vascular 1.24 (0.96 – 1.60) 1.51 (1.14 – 2.01)
Testes diagnósticos
Ecocardiograma 1.91 (1.64 – 2.23) 1.53 (1.28 – 1.84)
Espirometria 1.48 (1.15 – 1.90) 1.65 (1.22 – 2.23)
Colonoscopia 1.72 (1.38 – 2.15) 1.43 (1.12 – 1.85)
Endoscopia digestiva alta 2.04 (1.71 – 2.43) 2.17 (1.75 – 2.68)
Teste ergométrico 2.02 (1.58 – 2.58) 1.70 (1.27 – 2.28)
Mamografia 2.03 (1.84 – 2.24) 1.93 (1.72 – 2.17)

Continuidade do cuidado após internação hospitalar

Para consultas de seguimento após alta hospitalar, o cenário se repete. Aqui os intervalos de confiança são mais largos — fruto do menor número de eventos (internações são menos frequentes que diagnósticos e encaminhamentos). Mesmo assim, pacientes internados por angina pectoris, insuficiência cardíaca, AVC, pneumonias e infecções de pele tiveram chance muito maior de receber consultas de seguimento após alta quando seu médico é um médico de família.

Condição Dois meses (IC 95%) Quatro meses (IC 95%) Seis meses (IC 95%)
Hipertensão 1.19 (0.55–2.55) 1.11 (0.49–2.48) 1.22 (0.50–2.93)
Diabetes mellitus 1.30 (0.66–2.54) 1.26 (0.58–2.72) 1.54 (0.69–3.45)
Acidente vascular cerebral 1.43 (0.84–2.43) 2.20 (1.21–3.99)* 1.80 (0.97–3.32)
Angina pectoris 2.10 (1.33–3.31)* 1.78 (1.11–2.87)* 1.94 (1.15–3.28)*
Insuficiência cardíaca 3.09 (1.63–5.88)* 3.50 (1.80–6.82)* 3.33 (1.67–6.62)*
Pneumonia (crianças) 1.84 (0.95–3.56) 2.92 (1.40–6.07)* 3.18 (1.49–6.78)*
Pneumonia (adultos) 3.93 (1.32–11.68)* 2.60 (0.84–8.01) 2.08 (0.66–6.57)
Infecção de pele 1.62 (1.12–2.36)* 1.39 (0.95–2.02) 1.30 (0.88–1.93)

* IC 95% não inclui 1.0 (estatisticamente significativo).

METODOLOGIA E LIMITAÇÕES

Os Risk Ratios apresentados foram calculados por modelos binomiais multilevel ajustados por idade, sexo, índice de comorbidade de Charlson, índice de desenvolvimento social do bairro e tempo. Cada consulta foi tratada como evento binário aninhado dentro do paciente, dentro do médico ou da equipe de saúde da família, conforme o desfecho analisado.

Os números absolutos projetados pela barra acima usam a fórmula da Fração Atribuível Populacional (PAF) da Organização Mundial da Saúde, aplicada ao baseline observado de cada evento.

Limitações: os dados refletem o contexto específico do Rio de Janeiro entre 2013–2018, com a estrutura particular do sistema público municipal de APS. A generalização imediata para outros contextos requer cautela. Variações locais em estrutura, recursos e formação médica afetam a transferibilidade dos achados.

REFERÊNCIAS
  1. RBMFC 2020 — Pesquisa científica, atenção primária e medicina de família: três ingredientes essenciais para melhorar a qualidade dos cuidados de saúde. Rev Bras Med Fam Comunidade. Rio de Janeiro, 2020 Jan-Dec; 15(42):24661.
  2. BMC Family Practice 2021 — Jantsch, A.G., Burström, B., Nilsson, G. et al. Detection and follow-up of chronic health conditions in Rio de Janeiro – the impact of residency training in family medicine. BMC Fam Pract 22, 223 (2021).
  3. BMJ Open 2022 — Jantsch AG, Burström B, Nilsson GH, et al. Residency training in family medicine and its impact on coordination and continuity of care: an analysis of referrals to secondary care in Rio de Janeiro. BMJ Open 2022;12:e051515.
  4. PLOS Global Public Health 2023 — Jantsch AG, Burström B, Nilsson GH, Ponce de Leon A (2023) The impact of residency training in family medicine on hospital admissions due to Ambulatory-care Sensitive Conditions in Rio de Janeiro. PLOS Glob Public Health 3(10): e0000547.
  5. Tese (UERJ) — The impact of residency training in family medicine in promoting the attributes of primary care in Rio de Janeiro / O impacto da residência em medicina de família na promoção dos atributos da atenção primária no Rio de Janeiro.

Veja como essa proporção se traduz em economia para o sistema de saúde.

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